A CIÊNCIA A SERVIÇO DO ESPIRITISMO

Tentar explicar a doutrina espírita por meio da Física é algo complicado. Mas, não para o professor Wladimyr Sanchez

Por Ana Carolina Couttinho
Fotos: Tatyana Alves (no arquivo de imagens digitais)

Esta é um Maiêutica diferente. Não utilizamos um grande número de perguntas mas as que fizemos foram respondidas de forma aprofundada para não deixar dúvidas com relação às leis que regem o Universo e como o Espiritismo se enquadra nesses conceitos. Falar sobre Física não é algo simples. Transformar linguagem técnica em coloquial é complicado, pois não pode-se abrir oportunidade para erro de interpretação. Nesta entrevista, Wladimyr Sanchez explica a doutrina espírita dentro das leis que regem a Natureza. E consegue fazê-lo de forma clara, objetiva, fundamentada e, principalmente, compreensível. Sanchez comanda o Instituto de Pesquisa e Ensino da Cultura Espírita - IPECE, desde sua fundação em 2001. "Seus objetivos fundamentais são pesquisar e estudar os princípios da Doutrina Espírita e das teorias filosóficas contidas nas obras de Allan Kardec e de alguns outros autores espíritas de renome. O IPECE ministra cursos, assentados nos princípios da doutrina espírita, sob enfoque simultâneo da ciência, da filosofia e do Cristianismo, disse.
Com 64 anos e quatro curso superiores (Física, Engenheira Mecânica, Engenheira Nuclear e Engenheira civil), além de ser doutor em ciências, é PhD em Gerenciamento de Recursos Hídricos pelo MIT nos Estados Unidos. Essa formação não é o mais surpreendente, é, sim, saber que ele foi ateu por 35 anos. Teve formação católica, passou pela descrença em Deus e em 1987 ingressou no Espiritismo. "Compreendi que os espíritos, definidos como sendo os seres inteligentes da Criação, somos nós mesmos. Que não existe a dualidade "eu" e o "meu espírito", explicou.
Professor aposentado da Universidade São Paulo, USP, hoje dedica-se integralmente ao IPECE. Seus trabalhos científicos na sua área acadêmica podem ser conferidos na biblioteca do Instituto de Energia Atômica da USP, na da Cestesb e também na biblioteca da Cesp. Já na área espírita foram publicados os seguintes livros: Influência dos Espíritos no Nosso Dia-a-Dia; e Desmistificando o Dogma da Reencarnação. Brevemente serão lançados O Deus da Doutrina Espírita; e Deus e a Constituição da Matéria. Para saber mais informações sobre os cursos e palestras do IPECE, visite o site: www.ipece.kit.net

Qual a relação entre a Física e a Doutrina Espírita?

Wladimyr Sanchez - A palavra doutrina expressa conceito pertinente a um conjunto de princípios que servem de base de sustentação a um sistema de conhecimento humano. Por sua vez, a palavra princípio significa uma proposição que se coloca no inicio de uma dedução e que não é deduzida de nenhuma outra dentro do sistema considerado, sendo admitida, provisoriamente como inquestionável. Dessa forma, observa-se que, por definição a doutrina espírita deve se assentar em um conjunto de princípios, considerados, verdades inquestionáveis, por estarem associados às leis naturais (portanto, não dogmáticas), expressas nos conhecimentos humanos científicos, filosóficos e cristãos (segundo o ensino genuíno de Jesus de Nazaré).
Por outro lado, a palavra física, originada do grego physiké e do latino physica, significa Natureza, e define um ramo da ciência que se ocupa dos estudos das coisas da Natureza, entendendo-se por esta última palavra o conjunto das forças ativas que estabelecem e conservam a ordem natural de tudo o que existe no nosso Universo. Oras, se a Física, como ciência, estuda o conjunto de forças ativas que estabelecem e conservam a ordem natural de tudo o que existe no nosso Universo e a doutrina espírita se assenta em um conjunto de princípios, considerados verdades duradouras e inquestionáveis, por estarem sustentados na ciência, é fácil observar que se podem estudar fenômenos chamados espíritas, assentados nos princípios da doutrina espírita, pelas leis dessa mesma ciência.


Qual o posicionamento das teorias dos espíritos na Codificação em relação à evolução da Física?

WS - A Física estuda o conjunto de forças ativas que estabelecem e conserva a ordem natural de tudo o que existe no nosso Universo. A Física procura descrever o Universo, explicar como ele foi criado, como funciona, como morrerá e como a ele se associam todos os mais diversos tipos de seres que se inserem nele, animados e inanimados. Um físico é, portanto, uma pessoa como qualquer outra, apenas dotada, no mais das vezes, de qualidades de curiosidade e de um sentimento lógico que sua atividade de pesquisa só faz desenvolver, mas também carregada, às vezes, de defeitos de amor-próprio e de um exagerado grau de narcisismo que sua obrigação de pesquisar só faz exacerbar. Como o físico, além disso, está sujeito como qualquer outro ser humano às idéias de seu tempo, de sua educação, de sua cultura, de seus conceitos morais. Assim, a Ciência em geral e a Física, em particular, evoluem ao longo do tempo, porque o grau de desenvolvimento da faculdade inteligência que rege o comportamento do ser humano se altera, com o passar dos anos, assentando-se na chamada Lei do Progresso ou Lei da Evolução. Os espíritos são considerados os seres inteligentes da Criação, uma das forças da Natureza, independentemente da fase em que se encontram, encarnada ou desencarnada. Se o ser humano nada mais é que um espírito encarnado, cuja faculdade da inteligência se desenvolve ao longo do tempo, pelo uso a que ela é submetida, então, conseqüentemente, a Ciência ou a Física muda com o tempo, dando origem a novo princípios, a novos postulados, a novos axiomas, a novos teoremas. Muitas vezes, o novo destrói o antigo, mas nem sempre isso ocorre. O que se observa na essência são novos conceitos, novas leis, explicarem fenômenos em escalas cada vez mais microscópicas. Palavras usadas no passado, mas que hoje não definem bem alguns fenômenos, acabam sendo substituídas por outras mais especificas. Assim ocorre também com a doutrina espírita. Uma palavra muito usada nela, "fluido", na época de Kardec tinha um significado que cobria amplo espectro de eventos. Atualmente, essa palavra pode ser substituída por outras mais especificas, como energia, campo, para explicar os mesmos fenômenos relatados pelos espíritos, sem descaracterizá-los, eliminando a impressão que se tem de que esta palavra fluido é usada para encobrir uma coisa que não possui explicação física. Deve-se levar em conta ainda, como se refere Kardec, no livro Obras Póstumas, o conceito básico que deve reger o Espiritismo, é: "Um dos primeiros resultados de minhas observações foi que os espíritos, não sendo outros senão almas dos homens, não tinham a soberana sabedoria, nem a soberana ciência: que o seu saber estava limitado ao grau de seu adiantamento, e que sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Essa verdade, reconhecida desde o princípio, me preservou do grande escolho de crer na sua infalibilidade, e me impediu de formular teorias prematuras sobre o dizer de um só ou de alguns". Observa-se, portanto, que Kardec, em nenhuma de suas obras diz que O Livro dos Espíritos e seus derivados representam a palavra direta de Deus. Assim, os espíritos que lhe ditaram os princípios em que se assenta a doutrina espírita o fizeram baseados nos conceitos científicos vigentes na época, para ela poder ser aceita sem maiores controvérsias, além daquelas que criou. Observa-se, entretanto, em muitas entrelinhas, conceitos que a Ciência e a Física foram descobrindo aos poucos, ou dando-lhes maior consistência teórica. Não se pode esquecer também que os questionamentos levantados por Kardec, que fazem parte da primeira e da segunda edição de O Livro dos Espíritos e das obras subseqüentes devem sempre ser enfocados sob a visão multidisciplinar, já que o codificador do espiritismo era pessoa portadora de conhecimentos multidisciplinares, ligados à Física, Química, Biologia, Astronomia, Matemática, Geologia, Antropologia, Filosofia, Línguas, Educação, Psicologia, etc.
 

Qual a causa da matéria?

WS - Antes de respondermos o que é causa da matéria, ou seja, aquilo que faz com que ela exista realmente, vamos nos ater a alguns conceitos espíritas a ela pertinentes. De acordo com a questão número 22 de O Livro dos Espíritos o conceito de matéria foi exposto da seguinte maneira, pelos Espíritos que o ditaram a Kardec:
Allan Kardec - Define-se, geralmente, a matéria como sendo o que tem extensão, impressionam os nossos sentidos e é impenetrável. São exatas essas definições?
Espíritos - Do vosso ponto de vista essas definições são exatas, porque não falais senão do que conheceis. Mas a matéria existe em estados que vos são desconhecidos. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil que nenhuma impressão vós cause aos sentidos; entretanto, é sempre matéria, embora para nós não o seja".
Do mesmo livro, questão 82, destacamos, por economia de palavras, o texto (...)" pois deves compreender que sendo o espírito uma criação, deve ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos".
A palavra quintessenciada significa "o que há de principal, de mais alto grau, de essencial, de plenitude". A palavra quinta-essência surgiu entre os gregos para conceituar tudo aquilo que era constituído de matéria diferenciada daquela conhecida pelos seus quatro estados, água, terra, fogo e ar. André Luiz, autor desencarnado, em seu livro Mecanismos da Mediunidade, psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, se manifesta: "Compreendemos assim, perfeitamente, que a matéria mental é o instrumento sutil da vontade, atuando nas formações da matéria física, gerando as motivações de prazer ou desgosto, alegria ou dor, otimismo ou desespero, que não se reduzem efetivamente a abstrações, por representarem turbilhões de força em que a alma cria os seus próprios estados de mentação indutiva". Com todas essas definições de matéria, dadas de maneira clara e inequívoca, observamos que a grande maioria dos dirigentes espíritas brasileiros ainda desconhece o significado real dessa palavra porque seus conceitos são ainda essencialmente místicos-religiosos e eles não conseguem compreender como a matéria pode fazer parte do Espírito e dos fenômenos naturais que ele produz.
Do ponto de vista da Física, matéria é a energia transportada pela luz, aprisionada pela força da gravidade. Essa conceituação decorre da famosa equação de Einstein, E=mc², que iguala a energia "E" ao produto da massa "m" que a contém pelo quadrado da velocidade da luz "c²". Os físicos observaram a validade dessa equação ao notarem que um par de partículas elementares de matéria elétron e pósitron (antimatéria do elétron) ao se chocarem se aniquilavam, produzindo energia eletromagnética de energia 1,02 MeV (milhões de elétrons-volt, uma das unidades com que se mede a energia) que corresponde a soma das energias intrínsecas do elétron e do pósitron (0,51 MeV do elétron + 0,51 MeV do pósitron = 1,02 MeV). Posteriormente, um outro fenômeno foi observado. Uma radiação eletro-magnética, na forma de raio gama, com energia de 1,02 MeV, acabava produzindo um par elétron-pósitron, cada qual com 0,51 MeV de energia. A partir daí os físicos começaram a se perguntar: como pode a luz ser aprisionada pela gravidade? A resposta veio dessa forma: se o campo gravitacional for suficientemente forte ele dobra o raio de luz, isto é, faz com que ele descreva trajetórias espiraladas, para dentro, de raio cada vez menor, até se transformar ou se condensar num dos diferentes tipos de famílias de partículas elementares de matéria. Adivinhe agora em que lugar a força da gravidade é extremamente forte para aprisionar um raio de luz. É num buraco negro...
Assim, como ensinaram corretamente os espíritos na questão 22 de O Livro dos Espíritos, a matéria existe em estados que a maioria das pessoas comuns desconhece e que os dirigentes espíritas negam, porque isso faria ruir o mundo espiritual sobrenatural deles.
 

A teoria do Big-Bang é compatível com os postulados filosóficos do Espiritismo?

WS - Sim, a teoria do Big-Bang é compatível com os postulados e princípios em que se assentam a doutrina espírita. Vamos lembrar que o princípio número um dessa doutrina define Deus como sendo "a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas". Além disso, é interessante ressaltar ainda duas questões de O Livro dos Espíritos, a saber:
Espíritos, P.19 - "Pelas investigações cientificas, não pode o homem penetrar alguns dos segredos da Natureza?"
Espíritos - "A ciência lhe foi dada para o seu adiantamento em todos os campos, mas ele não pode ultrapassar limites fixados por Deus.(...). Quanto mais é dado ao homem penetrar nesses mistérios, mais cresce a sua admiração pelo poder sobrenatural do Criador."
A Astrofísica atual toma como ponto de partida do Big-Bang, a "Grande Explosão" primordial que deu origem ao Universo, não o exato momento dessa explosão mas sim os 10-43 de segundo após a ela - o número 1 precedido de 43 zeros, ou seja, 0,00...(quarenta e três zeros) ...1. Nessa idade extremamente diminuta, o Universo já continha na sua estrutura tudo o que ele iria conter no futuro, os átomos, os planetas, os satélites, os cometas,as estrelas, as galáxias, as árvores, os cristais, os animais e o homem. Tudo isso contido numa esfera inimaginavelmente pequena: 10-33 de centímetro - novamente 0,00...(trinta e três zeros) ...1, ou seja, bilhões de bilhões de bilhões de vezes menor que o diâmetro do menor átomo conhecido, que é o hidrogênio, cujo valor é 10-13 centímetro - 0,00... (treze zeros) ...1.
Os físicos não conseguem ter idéia do que aconteceu no exato instante da criação do Universo, porque as equações que representam sua criação falham, nesse momento crítico, confirmando a predição da questão 19 de O Livro dos Espíritos de que a ciência do homem não consegue ultrapassar determinados limites fixados pela inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas, pelo menos no estagio evolutivo da nossa Terra, considerada na nomenclatura espírita "mundo de expiação e provas", terceira categoria de um total de sete. As leis da física conseguem retroceder até 10-43 segundos após o Big-Bang e explicam, satisfatoriamente, tudo o que se passa a partir daí. Mas, esbarram então nessa limitação, chamada "Limite de Planck", em homenagem ao grande físico alemão, o primeiro a assinalar que a ciência era incapaz de explicar o comportamento dos átomos em condições onde a força da gravidade se torna extremamente elevada, tendendo ao infinito...
Entre os leigos é comum ouvir-se expressões dos tipos: o Big-Bang ocorreu realmente? O Big-Bang não passa de uma especulação teórica? Se o Big-Bang ocorreu por que não é aceito pela unanimidade dos físicos? Etc, etc.
Para a grande maioria dos astrofísicos atuais existem pelo menos três indícios principais que os levam a pensar na existência real do Big-Bang que são válidos. Em Física não existe unanimidade de pensamento pois é a divergência de se compreender os mecanismos dos fenômenos físicos que a levam a se constituir uma ciência de vanguarda, construindo novas teorias à medida que o grau de inteligência do ser humano cresce. O primeiro indício é a idade das estrelas: as estrelas mais antigas do Universo possuem idade de cerca de 12 a 15 bilhões de anos, compatíveis com a idade dele, estimada entre 15 e 20 bilhões de anos. O segundo argumento baseia-se na análise da luz proveniente das galáxias, mostrando que elas se afastam uma das outras com velocidade tanto mais elevada quanto mais distante elas estão, sugerindo que estiveram, outrora, reunidas numa região única do espaço, no seio de uma nuvem primordial de partículas elementares de matéria. O terceiro indício ocorreu em 1965, quando dois físicos detectaram experimentalmente, a existência, em todas as regiões do Universo, de uma radiação eletromagnética de baixa intensidade (na faixa de freqüência das microondas), análoga a emitida por um corpo em temperatura muito baixa, três graus acima do zero absoluto. Essa radiação eletromagnética uniforme, espalhada por todo o universo, é uma espécie de registro fóssil, o eco fantasmagórico dos fluxos de calor e de luz extremamente altos nos primeiros instantes da criação do Universo e que corresponde, por semelhança descritiva, ao "fiat luz" da Bíblia e da questão 38 de O Livro dos Espíritos: Evidentemente existem outros postulados ou princípios da doutrina espírita que são compatíveis com a teoria do Big-Bang e que passariam por longa narrativa.
 

O Espírito Galileu fala, na Gênese, da diversidade de Universos. Até onde a Física acompanha esse conceito?

WS - Esta é uma pergunta que nos permite esclarecer alguns conceitos, de natureza cosmológica, ligados ao Espiritismo. Começamos pelo significado da palavra mundo, que pode assumir diferentes sentidos, conforme a frase e o conceito onde ela se insere. Se usarmos o Novo Dicionário Aurélio, encontramos para a palavra mundo, muito freqüente nas obras kardequianas, os conceitos seguintes: 1 - totalidade das coisas que pertencem a um mesmo domínio, uma mesma classe (por exemplo: mundo dos peixes, mundo dos planetas, mundo das estrelas, mundo dos cristais, etc); 2 - o globo terrestre, a Terra, o orbe, o planeta; 3 - qualquer espaço, na Terra, e os seres que habitam tal espaço; 4 - a humanidade; 5 - classe social; 6 - conjunto de astros do Universo que formam um todo organizado; etc. Por sua vez, a palavra Universo significa "o conjunto de tudo o que existe, tomado como um todo"; aquilo que se compõe de partes harmonicamente encadeadas. Assim, quase nunca, nos textos kardequianos, a palavra mundo assume significado de Universo.
O Espírito Galileu é considerado pelos espíritas o autor do capitulo VI, do livro A Gênese, ditado ao médium Camille Flammarion, amigo pessoal de Kardec, que era astrônomo, na oportunidade, narra no item 36 o seguinte texto: "Ora, sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta por sua vez, nada ou quase nada, na universalidade das nebulosas e essa própria universalidade bem pouca coisa dentro do imensurável infinito, começa-se a compreender o que é o globo terrestre." Assim, quando o presumível espírito Galileu extrapola a universalidade das nebulosas para o imensurável infinito, dá-nos a idéia de que pode existir outras universalidades e outros universos além do nosso.
A Mecânica Quântica, um ramo ainda pouco explorado da Física, embora, possua mais de cem anos de vida, mostra que é possível existir muitos Universos. Ao admitir que um Universo qualquer, inclusive este nosso, que começamos a compreender melhor, pode conter uma contribuição substancial da energia do vácuo. Admitindo-se que o estado de vácuo de um Universo pode conter energia infere-se que esse vácuo possa ter muitos estados diferente de energia variadas. Um Universo com múltiplos estados energéticos do vácuo poderia passar por um efeito extremamente interessante. A longo prazo: o vácuo poderia ficar instável e o Universo sofreria uma transformação futura para um estado inteiramente novo, um estado com menor energia do vácuo. Assim, esse Universo poderia permitir uma transição para o estado energético inferior por meio de um processo quântico de formação de túneis ou de tunelamento, chamado "buraco de minhoca". Quando ocorrer o processo de tunelamento nesse ponto especifico do espaço, uma região microscópica se transformará, espontaneamente, num novo estado de vácuo de energia mais baixa. Quando se iniciar a transição de fase, bolhas microscópicas do estado de vácuo verdadeiro se nuclearão no fundo do falso vácuo e começarão a se expandir. Esse processo é muito parecido com o de crescimento de cristais de gelo na água, quando ela é resfriada para temperatura abaixo do ponto de congelamento. O cristal de gelo começa a crescer num ponto bem definido, mas geralmente arbitrário, aumentando de tamanho. A região congelada se expande como uma frente de onda que avança e, ao passar, converte a água liquida em cristais de gelo. Dessa forma, a bolha do novo estado de vácuo expandiria de maneira semelhante, convertendo o Universo de fundo do antigo estado de vácuo na nova fase, com um novo estado de vácuo. Assim, o antigo Universo se transformaria num novo Universo, com um novo estado de vácuo, e, desse jeito sucessivamente, promovendo a existência de múltiplos Universos ao longo de um tempo relativamente grande. Esse conceito é defendido por muitos físicos como Greg Laughlin, Fred Addans, Stephen Hawking e outros.
Ao se falar de múltiplos Universos, do conceito eventualmente expresso por Galileu, psicografado por Camille Flammarion, deve-se ainda recordar um dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, quando citou que: "Há muitas moradas na casa de meu Pai". A interpretação comumente dada a esse conceito é que "na morada de meu Pai, o Criador", considerada o nosso Universo. Existem muitos planetas com condições de abrigar vida biológica semelhante a do homem atual. Mas, podemos ver nesse ensinamento algo mais profundo ainda. Primeiro, pergunta-se onde é a casa de meu Pai? A resposta óbvia, o nosso Universo, está totalmente errada. É que Deus, inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas, criador do nosso Universo, nunca poderia estar inserido nele, por ocasião da sua criação. Para Deus criar o Universo precisa estar fora dele. E, estando fora do nosso Universo está também fora daquilo que os físicos chamam de espaço-tempo. Os matemáticos podem descrever os limites do espaço-tempo, por meio de suas equações, mas não podem descrever o que está além do espaço-tempo. Sabe-se também que tudo o que está além do espaço-tempo pode-se conectar diretamente com tudo o que se encontra no interior do espaço-tempo. O além do espaço-tempo não sendo físico, é imensurável. Dessa forma, se Deus está fora do nosso Universo, fora de seu espaço-tempo, ele pode estar em todas as coisas que criou, pois cada parte está diretamente conectada a cada uma das outras partes. E, se o pensamento de Deus pode ser transportado por uma função de onda quântica, procedente de além do espaço-tempo, que se propaga num sentido de duplo fluxo, então pode construir, em cada instante, tudo o que existe no interior do espaço-tempo ao mesmo tempo em que pode estar presente nas nossas mentes e corações. Assim sendo, fica mais fácil compreender, do ponto de vista da Mecânica Quântica, como pode estar Deus fora do espaço-tempo e ao mesmo tempo construir outros Universos e tudo aquilo que conhecemos no nosso Universo. Daí, podem inferir que o mais lógico seria interpretar que existem outros Universos além do nosso quando Jesus de Nazaré informou que "na casa de meu Pai existem muitas moradias".
 

Os Universos têm pontos de contato físico entre si ou o que liga os diversos planos é apenas a alma? Explique.

WS - Você faz ao mesmo tempo duas perguntas complexas e bem distintas uma da outra. Vamos inicialmente procurar compreender o significado da palavra plano, colocada no contexto, já que ela pode assumir diferentes sentidos. A palavra plano pode significar, entre outros: 1) lugar liso, sem desigualdades; 2) que possui superfície plana; 3) qualquer superfície plana limitada, tomada isoladamente ou em relação a outra; 4) representação gráfica, numa dada escala, da estrutura ou da organização de algo em três dimensões; 5) arranjo ou disposição de um lugar qualquer, 6) superfície que contem inteiramente qualquer reta que une dois de seus pontos; 7) plano coordenado, ou seja, qualquer dos planos das três famílias que definem um sistema cartesiano de coordenadas. 8) outros mais. Acredito que você esteja se referindo a definição contida no item 7, de plano coordenado que significa locais de diferentes dimensões, bidimensionais, multidimensionais. Vamos, portanto, enfocar nosso raciocínio para essa definição. Mas, antes, vamos procurar responder a primeira parte da questão formulada, isto é, se os Universos paralelos possuem pontos de contato físico entre si.
A Mecânica Quântica nos mostra que a possibilidade de se criar "universos-filhos" através de um processo de tunelamento quântico. Nesse caso, uma bolha do falso vácuo de maior energia se nuclearia num espaço-tempo vazio, no estado de vácuo verdadeiro de energia mais baixa. Se a bolha nucleada for suficientemente grande ela se expandirá a grande velocidade, semelhante a da inflação cósmica que ocorreu no nosso Universo, logo depois do Big-Bang. À medida que essa bolha se expande ela acaba por se desvincular casualmente do espaço-tempo original do nosso Universo. Torna-se um Universo novo, considerado no linguajar dos astrofísicos modernos um "Universo-filho". As perguntas comuns entre os físicos, a esse respeito, são: 1) como se produzir um Universo inteiro a partir do nada? 2) para onde e para que ele se expandirá?
A resposta, para ambas, está no fato de que a bolha recém-criada do novo espaço-tempo não se expandiria para coisa alguma porque é o próprio espaço-tempo que se expande. Dessa maneira, o nosso "Universo-filho" criaria seu próprio espaço-tempo, deixando de usar o espaço-tempo do "Universo-pai". Para compreendermos melhor, imaginemos uma versão bidimensional do Universo como sendo uma lâmina de borracha que se estica à medida que ele se expande. O desvio dessa lâmina de borracha, possuindo uma geometria puramente plana, representa a curvatura do espaço-tempo. Esse Universo bidimensional está inserido num espaço tridimensional que somos capazes de compreender, enquanto que o Universo real, nosso, encontra-se acrescido de uma quarta dimensão temporal. Como não sabemos ver facilmente em quatro dimensões, usamos a imaginação para fazê-lo em duas dimensões que é de mais fácil compreensão. À medida que o Universo recém-criado se expande, ele se transforma rapidamente numa imensa esfera ligada ao "universo-pai", plano, por um tubo estreito. Essa ligação estreita e altamente recurvada com o antigo "universo-pai" é chamada buraco-de-minhoca (wormhole) relativista, um tipo de túnel que liga diferentes partes do espaço-tempo. Nesse caso, o buraco-de-minhoca liga fluentemente o "universo-filho" recém-formado ao espaço-tempo plano do "universo-pai". Com a expansão do novo Universo, entretanto, o próprio buraco-de-minhoca diminui e acaba por se evaporar. Quando isso ocorre o "universo-filho", deixa de ter qualquer ligação causal com o "universo-pai" que passa a ser realmente separado.
Esse "universo-filho" recém-criado tem uma aparência bem diferente para os observadores que vivem no seu interior e os que se encontram fora dele. Os que vivem no interior vêem seu Universo local num estado de expansão exponencial enquanto que os observadores de fora o vêem como um buraco-negro em colapso, que não tarda a se desligar causalmente do "universo-pai". Graças a esse desligamento causal, os "universos-filhos" não afetam a futura evolução do "universo-pai". No entanto, esses "universos-filhos" podem receber informações dos "universos-pais", porque antes deles perderem o contato, por meio da evaporação no buraco-de-minhoca, pode ocorrer, entre eles, transferência de comunicações e até mesmo transferências de matéria. As implicações dessas possibilidades são profundas.
Confrontada com a futura morte e a extinção inevitáveis em nosso Universo, uma civilização futura, bem mais avançada intelectual e tecnicamente, poderia criar uma via de escape e predeterminar as propriedades e as leis físicas para garantir que esse novo Universo apresentasse condições de abrigar o desenvolvimento da vida orgânica como a conhecemos.
A segunda parte da pergunta parece se referir a diferentes planos coordenados de um mesmo Universo, que permitiria a alma (portanto, espírito encarnado) interconectá-los, fisicamente ou por meio de seu pensamento criador. Desde a criação da Teoria da Relatividade, de Einstein, quando se percebeu que o nosso Universo se assentava em quatro dimensões, os físicos passaram a se perguntar se realmente eram apenas essas quatro dimensões responsáveis para a explicação de todos os mecanismos que regem os eventos que se assentam nas leis naturais. Surgiram, então, diferentes teorias na Física Quântica a respeito da existência de múltiplas dimensões no nosso espaço-tempo universal. Entre elas a "Teoria das Cordas", ainda não bem sedimentada, que relaciona uma supercorda com "D" dimensões com uma teoria de "D" -dimensões, baseada no princípio holográfico que se resume no mecanismo que determina o funcionamento do holograma, pelo qual ele consiste numa fotografia bidimensional que carrega consigo uma informação sobre o ambiente tridimensional de onde essa foto foi realmente tirada. A Teoria das Supercordas procura se relacionar com uma outra Teoria "M", pertinente a 11 dimensões. Assim, a Física parte em busca da comprovação experimental de outras dimensões, além das quatro que conhecemos, como meio de explicar o mecanismo correto de muitos fenômenos que ocorrem na escala micro do nosso Universo. Existindo essas outras dimensões, inevitavelmente, a inteligência humana, representada no pensamento criador da alma, lá estará também, concordando com a questão número 89, de O Livro dos Espíritos, transcrita a seguir:
Allan Kardec - "Os espíritos gastam algum tempo para percorrer o espaço?
Espíritos - Sim, porém rápido como o pensamento".
Allan Kardec - "O pensamento não é a própria alma que se transporta?"
Espíritos - "Quando o pensamento está em qualquer parte, a alma ai está também, pois é a alma quem pensa."
A análise detalhada dessa questão, do ponto de vista da Física, é extremamente complexa e deve ficar para uma nova oportunidade.